Sinecom-JP

Crise que entendemos como econômica e política é gerada pelo empresariado

Data publicação: 24/07/2018    Autor: Marcell    Categoria: NewsPaper

Levantamento do Dieese aponta manipulação de patrões em período anterior à reforma para gerar cenário de desemprego capaz de justificar a Reforma Trabalhista

Escrito por: Luiz Carvalho

Ao longo de todo o processo de construção do golpe, as organizações sindicais apontaram o apoio do empresariado à queda de Dilma Rousseff em troca de favores como a Reforma Trabalhista, que chegou logo no início do governo golpista de Michel Temer (MDB).

A denúncia ganhou a forma de números durante encontro da direção da Contracs (Confederação dos Trabalhadores no Comércio e Serviços) nesta quinta-feira (19), em Mongaguá, quando o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apresentou um levantamento que referendou essa estratégia.

A taxa de desocupação de pessoas com 14 anos ou mais dobrou entre o primeiro trimestre de 2014 e o primeiro trimestre de 2018, de 7,2% para 13,1%, mas é a flutuação desses números que chama a atenção.

Conforme destacou o técnico para a subseção do Dieese na Contracs, Rodrigo Silva, em levantamento baseado no Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) com recorte para o setor de comércio e serviços que absorve trabalhadores com menor qualificação, um ano antes e logo após a primeira vitória da presidenta Dilma (2010), começou a demissão em massa de trabalhadores integrais.

O ápice dessa avalanche acontece em 2016, com o saldo negativo de 495.829 trabalhadores. Porém, logo após a queda, as contratações recomeçam, conforme aponta o gráfico abaixo.






“O trabalhador que é mais demitido é o trabalhador integral, de 41 horas a 44 horas. Demitir quem trabalha 44 horas faz sentido, quando você pensa que fará reforma e poderá recontratar sem cobertura previdenciária, sindical e homologação. A crise que entendemos como econômica e política é gerada pelo empresariado e isso não é reflexo da reforma, da lei, mas da atuação do empresário, do mercado de trabalho que deu argumento para Temer fazer reforma com a justificativa de que haveria novos empregos”, criticou.

Intermitente – Setor que mais contrata intermitentes, aquele em que o trabalhador recebe apenas pelas horas trabalhadas, que pode ser fracionada e parcial, de acordo com a necessidade urgente do patrão, o comércio e serviços também observa como a precarização destrói a qualidade dos empregos.

Do saldo acumulado (relação entre contratações e demissões) de 20 mil postos entre novembro de 2017 e maio de 2018, 14 mil estão apenas neste segmento. E desses, 92% do comércio e 81% do setor de serviços possuem até ensino médio completo.

“Há uma preferência pela baixa escolaridade como há pelo baixo salário. A nova regulamentação enfraqueceu e precarizou o posto de trabalho, que nos casos dos intermitentes, em sua maioria, são contratados para atuar até 12 horas. O argumento de contrato intermitente era regularizar os informais, mas os dados mostram o avanço das demissões antes da Reform, uma estratégia já para emplacar a Reforma.”

A conjunção de salários menores com menor formação, ausência de benefícios como plano de saúde, auxílio alimentação e cobertura previdenciária, que geram mais custos para o trabalhador arcar do próprio bolso, já que não estarão cobertos por convenções coletivas, dão ideia de como a economia será derrubada a curto e médio prazo.

O viés patronal

Ao abordar as estratégias de negociação, o supervisor técnico do Dieese, Victor Pagani, apontou a queda das convenções coletivas (por categorias) maior em relação aos acordos coletivos (por empresas) como um fator que demonstra a tendência de os patrões fecharem pautas mais por empresa. Maneira de fragmentar mais a negociação e diminuir o poder dos sindicatos, ressaltou.










Com isso, fica mais fácil para o patrão impor sua pauta,  já que a força do sindicato, mais abrangente e com maior poder de mobilização, fica reduzida. Em muitos casos, destacou Victor, a negociação que se resolvia em dois meses está em seis meses sem desfecho e os pontos mais delicados têm sido manter a homologação nos sindicatos e as fontes de custeio.

“Além de denúncias de acordos que não são benéficos a trabalhadores sendo feitos e não registrados por mediadores para não gerar problemas com Ministério Público”, falou.

Em relação os postos de trabalho, ele destacou que somente a faixa de até 1,5 salário mínimo cresceu e essa estrutura agrava uma realidade em que 45% dos trabalhadores, pela faixa de renda, estarem atualmente fora do sistema previdenciária.

Na visão de Victor Pagani, a saída está na manutenção da mobilização e na unidade, como o apoio à Agenda Prioritária da Classe Trabalhadora, construída com assessoria do Dieese e que reuniu as sete centrais em torno de um documento focado na geração de empregos de qualidade.

“Os instrumentos para negociação continuam as mobilizações, paralisações e greves. Fora esse movimento dos caminhoneiros mostrou que as redes sociais ajudam na mobilização desde que bem utilizada, desde que o dirigente não utilizem isso para substituir o olho no olho. Se usar para complementar a ida na base onde se ganha confiança, é uma importante ferramenta de luta”, defendeu.

Tags: