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A ORIGEM DA CORRUPÇÃO NO BRASIL OCORREU APENAS A PARTIR DE 2003?

Data publicação: 17/04/2016    Autor: Marcell    Categoria: Marcell Mendonca

A ORIGEM DA CORRUPÇÃO NO BRASIL OCORREU APENAS A PARTIR DE 2003?

Uma breve memória da Corrupção no Brasil. 

 

Temos observado muitos brasileiros falar em combate a corrupção nos últimos dias. Infelizmente, esse tema tem sido tratado de forma superficial e utilizado pela grande mídia para manipular a opinião pública na elaboração de um “senso comum” a serviço daqueles que, contraditoriamente, não tem o mínimo interesse nas práticas de combate a corrupção.

 

É preciso discutir essa questão mostrando aos que “acreditam” que a corrupção no Brasil teve início, tão somente, a partir de 2003, com a ascensão de Lula no Palácio do Planalto, que os primeiros registros de corrupção em nosso país datam do século XVI, no período da colonização portuguesa.

 

Nesse período temos, por exemplo, registros de funcionários da Coroa portuguesa, que ao invés de cumprir suas obrigações de fiscalizar os freqüentes contrabandos, desviavam suas funções praticando o comércio ilegal de produtos, como o pau-brasil.

 

Com a proclamação da independência em 1822, outras formas de corrupção surgem no cenário nacional, como a corrupção eleitoral. O voto censitário introduzido pela Constituição de 1824, que estabelecia o critério de uma renda mínima para se ter o direito de votar, foi um instrumento extremamente importante para a “institucionalização” da corrupção no período da monarquia no Brasil.

 

No período da escravidão no Brasil, podemos lembrar o momento após 1850, com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que estabelecia a proibição do tráfico de escravos. Nesse momento, o governo brasileiro era omisso, tolerante e conivente com a permanência da comercialização de escravos. Aliados do governo burlavam a lei e, sem nenhum problema, comercializavam escravos para o trabalho em suas propriedades.

 

Outra prática de corrupção bastante marcante em nossa história ocorre a partir de 1889, no início da República Velha, com o “voto de cabresto”, prática utilizada pelos grandes latifundiários, conhecidos como Coronéis, que impunha coercitivamente o voto desejado aos seus empregados e dependentes. Ainda nesse período era comum a construção de obras públicas em propriedades particulares, principalmente no Nordeste, como açudes que foram construídos em latifúndios de coronéis ligados politicamente aos mandatários de plantão.

 

A ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, acontece a partir de uma grande mobilização popular que denunciava as constantes práticas de corrupção realizadas pelas oligarquias dos cafeicultores paulistas, num momento marcante de violação dos princípios democráticos onde, dentre outros fatores, a fraude eleitoral serviu para a tomada de poder.

 

O governo de Juscelino Kubitscheck, historicamente lembrado como o presidente que realizou 50 anos de progresso em apenas cinco anos de governo e, ainda, por ter construído Brasília; não passou imune a acusações de práticas de corrupção. Nas obras para a construção de Brasília, ocorreram denúncias de superfaturamento e favorecimento a empreiteiros ligados ao governo.

 

No período de 1964 a 1985, falar em combate a corrupção representava uma ameaça a ordem vigente e um verdadeiro ato subversivo. Nesse momento a corrupção no Brasil era totalmente jogada para “debaixo do tapete”. Nessa época, não havia fiscalização e com uma imprensa censurada e sindicatos fechados ou sob ameaças, a corrupção era freqüente e realizada em larga escala por generais e coronéis que estavam no comando do país. As grandes obras construídas nesse período, como a Ponte Rio-Niteroi, Transamazônica, Usina Nuclear de Angra dos Reis, dentre outras, contribuíram para que algumas empreiteiras se tornassem as maiores empresas do país em poucos anos.

 

E o período da redemocratização? Infelizmente, a grande expectativa e esperanças do povo brasileiro, não foram suficientes para conter as experiências cotidianas de corrupção. O Governo Collor chegou ao ponto de sofrer o primeiro impeachment de nossa história por envolvimento em corrupção. No governo de Itamar Franco foi criada uma CPI para investigar denúncias de corrupção envolvendo irregularidades no orçamento da União. E para finalizar, no governo de FHC, dentre tantos outros casos, não podemos esquecer o escandaloso esquema da compra de deputados para aprovação da emenda constitucional da reeleição.

 

Essa pequena e superficial amostra da corrupção no Brasil nos leva a refletir que o discurso raivoso e ofensivo da grande mídia ao ex presidente Lula, a Presidenta Dilma, ao PT e a esquerda de uma forma geral, é escandalosamente, um discurso a serviço das grandes elites. É preciso esclarecer que esses setores são os mais envolvidos em corrupção ao longo de nossa história e não tem o menor interesse em fortalecer os órgãos de controle e combate a corrupção.

 

Nesse momento de crises e incertezas, nosso grande desafio é conscientizar as camadas populares, principalmente aqueles que mais foram beneficiados nos últimos anos com as políticas de inclusão social do governo federal, do grande risco de retrocesso e percas políticas, econômicas e sociais que podemos enfrentar, caso continuem assumindo um papel de “inocentes úteis” reproduzindo e defendendo uma causa que não é nossa, mas daqueles que sempre foram responsáveis pelas grandes desigualdades sociais presentes ao longo da história de nosso Brasil.

 

Josivaldo Farias – Professor de História, Sindicalista e Presidente do Diretório Municipal do PT de Bayeux. 

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